Como eu disse, estava planejando essa mudança há alguns meses. Na realidade, desde que eu comecei a trabalhar. Nesse período fiz questão de juntar um dinheiro. Tinha posto uma meta de 20% do que eu ganhasse por mês mais o que restasse – ou seja, a poupança só ficava com 20% normalmente -. Além dos presentes em dinheiros nas datas comemorativas.
Enfim, lá estávamos nós. Eu, Fred e Rô. Contemplávamos a loja mãe dos eletros e móveis. Missão: comprar estritamente o necessário fugindo de qualquer coisa empurrada pelos vendedores maníacos por vendas.
Eu sei que é o trabalho deles. Mas quando vou às compras - no meu caso - saio para comprar o que tenho que comprar. Exemplo: se saio para comprar uma caneta azul e tenho uma quantidade x de dinheiro para comprar aquela caneta, não adianta o vendedor vir me oferecer o kit completo. Eu só vou comprar aquela caneta azul. Mas ai ele vem me oferecer o lápis. Moço, eu só quero a caneta. Uma borracha? Tá bom, acho que tenho alguma uma moedinhas aqui. Por fim, fazer compras pode ser muito perigoso. Ainda mais quando o seu orçamento é contado nas minúcias.
Lista de compras
2. TV 14 polegadas [afinal, preciso ver os meus filmes]
3. DVD player
4. Rack
5. Mesa de jantar
A lista era basicamente esta. Por incrível que pareça tudo estava dentro do meu orçamento, menos a geladeira.
Eu tinha que ter dinheiro para pintar o apartamento, retocar os buracos e colar os tacos soltos. Sem contar que precisava de uma cortina nova. Não sei se eu falei, mas tem um prédio em frente ao meu e a N. S. de Copacabana não é tão larga para que me impeça de ver o apartamento da frente – vice-versa.
Aproveitamos que no shopping também tinha uma casa de construção, passamos lá para comprar nosso material de obra. Isso mesmo. Eu não tinha dinheiro para pagar para alguém fazer isso. Logo, os amigos servem para essas coisas, certo?
Compramos duas tintas, uma branca e a outra azul bebê, massa corrida para os buracos e cola para os tacos. Rô insistiu para eu que comprasse cúpulas para as lâmpadas.
- Luiza, vai dar um toque especial. Se o problema for o preço...
- Poupe-me Rô. – peguei quatro cúpulas iguais a que ela segurava e joguei no carrinho.
O preço era o problema, sempre vai ser, mas o que seria do meu apartamento sem um toque especial.
Por sorte tínhamos um representante do sexo masculino.
- Vocês vão pintar a parede com o que? – Fred olhou para carinho. Já estávamos na fila. – Com a mão vai ser meio difícil – ele debochou.
- Talvez pudessem usar a sua cabeça, essa sua juba daria um ótimo pincel! – Rô, sempre muito delicada.
- Já volto. - Fred saiu atrás dos pinceis rindo.
Enquanto Fred levava as compras da loja de construção para o carro – as casas Bahia fizeram questão de levar os produtos até em casa, iriam chegar segunda – eu fui ajudá-lo. Rô tinha ido pagar o estacionamento. Mas aparentemente ela tinha se perdido no caminho.
- Desculpa a demora. Vamos? – ela chegou um pouco ofegante. Eu e o Fred nos entreolhamos e ficamos admirados com a figura bizarra na nossa frente – O que foi?
- O que foi pergunto eu?
- Ai gente, vamos, por favor. Já são quatro horas, temos que pintar começar essa reforma antes de você ir trabalhar.
Rô me fez cair no mundo real. Eu ainda tinha que trabalhar. Não tinha conseguido uma folga. Aparentemente, quando você se torna vendedor* essas coisas se tornam mais difíceis.
*não me julgue por julgar os vendedores, não estou querendo ser hipócrita com a minha própria classe, mas eu não ganho uma porcentagem em cima das vendas. Ou seja, não é vantagem para eu empurrar a loja inteira para o cliente. Nem quero ser isso para vida inteira. Nesse emprego eu só quero experiência de vida, não uma carreira.
Primeiro começamos a forrar o chão com jornal. Baseávamo-nos nas obras que tínhamos vivenciado em nossas vidas. Porém, tirando a parte de que alguém faz tudo pela gente. Fred – o homem do recinto – pegou o pote de massa corrida e começou a passar nos buracos.
- Fred eu acho que temos que tirar essa camada de tinta antes. – Eu comecei a puxar umas lascas que saiam da parede.
- Aqui não diz nada – ele olhou inocente para latinha.
Nisso, Rô apareceu vestida em um macacão jeans velho e com uma bandana na cabeça.
- Como estou? – Rô começou a desfilar. Seus passos eram acompanhados com o amassar do jornal que forrava o chão.
- A senhora top-model da construção civil, podia vir aqui dar uma ajudinha. – eu falei.
- O que você está fazendo Fred?
- Tampando os buracos. – ele já tinha tampado uns cinco.
- Mas não temos que tirar a camada de tinta velha antes? – exatamente o que eu falei.
Fred ficou olhando confuso.
- Você que faz faculdade de engenharia civil, não deveria estar me perguntando isso.
- Mas por que, cargas d’água, está fazendo isso sem me consultar?
- Agora vai virar a mestre de obras?
Ih! Foi só o começo. Eu simplesmente peguei a minha espátula e comecei a tirar a tinta da parede.
