domingo, 31 de janeiro de 2010

Capítulo 4


Como eu disse, estava planejando essa mudança há alguns meses. Na realidade, desde que eu comecei a trabalhar. Nesse período fiz questão de juntar um dinheiro. Tinha posto uma meta de 20% do que eu ganhasse por mês mais o que restasse – ou seja, a poupança só ficava com 20% normalmente -. Além dos presentes em dinheiros nas datas comemorativas.
Enfim, lá estávamos nós. Eu, Fred e Rô. Contemplávamos a loja mãe dos eletros e móveis. Missão: comprar estritamente o necessário fugindo de qualquer coisa empurrada pelos vendedores maníacos por vendas.
Eu sei que é o trabalho deles. Mas quando vou às compras - no meu caso - saio para comprar o que tenho que comprar. Exemplo: se saio para comprar uma caneta azul e tenho uma quantidade x de dinheiro para comprar aquela caneta, não adianta o vendedor vir me oferecer o kit completo. Eu só vou comprar aquela caneta azul. Mas ai ele vem me oferecer o lápis. Moço, eu só quero a caneta. Uma borracha? Tá bom, acho que tenho alguma uma moedinhas aqui. Por fim, fazer compras pode ser muito perigoso. Ainda mais quando o seu orçamento é contado nas minúcias.
 
Lista de compras

1.       Geladeira
2.       TV 14 polegadas [afinal, preciso ver os meus filmes]
3.       DVD player
4.       Rack
5.       Mesa de jantar

                A lista era basicamente esta. Por incrível que pareça tudo estava dentro do meu orçamento, menos a geladeira.                
                Eu tinha que ter dinheiro para pintar o apartamento, retocar os buracos e colar os tacos soltos. Sem contar que precisava de uma cortina nova. Não sei se eu falei, mas tem um prédio em frente ao meu e a N. S. de Copacabana não é tão larga para que me impeça de ver o apartamento da frente – vice-versa.
                Aproveitamos que no shopping também tinha uma casa de construção, passamos lá para comprar nosso material de obra. Isso mesmo. Eu não tinha dinheiro para pagar para alguém fazer isso. Logo, os amigos servem para essas coisas, certo?
                  Compramos duas tintas, uma branca e a outra azul bebê, massa corrida para os buracos e cola para os tacos. Rô insistiu para eu que comprasse cúpulas para as lâmpadas.
                - Luiza, vai dar um toque especial. Se o problema for o preço...
                - Poupe-me Rô. – peguei quatro cúpulas iguais a que ela segurava e joguei no carrinho.
                O preço era o problema, sempre vai ser, mas o que seria do meu apartamento sem um toque especial.
                Por sorte tínhamos um representante do sexo masculino.
                - Vocês vão pintar a parede com o que? – Fred olhou para carinho. Já estávamos na fila. – Com a mão vai ser meio difícil – ele debochou.
                - Talvez pudessem usar a sua cabeça, essa sua juba daria um ótimo pincel! – Rô, sempre muito delicada.
- Já volto. - Fred saiu atrás dos pinceis rindo.
Enquanto Fred levava as compras da loja de construção para o carro – as casas Bahia fizeram questão de levar os produtos até em casa, iriam chegar segunda – eu fui ajudá-lo. Rô tinha ido pagar o estacionamento. Mas aparentemente ela tinha se perdido no caminho.
- Desculpa a demora. Vamos? – ela chegou um pouco ofegante. Eu e o Fred nos entreolhamos e ficamos admirados com a figura bizarra na nossa frente – O que foi?
- O que foi pergunto eu?
- Ai gente, vamos, por favor. Já são quatro horas, temos que pintar começar essa reforma antes de você ir trabalhar.
Rô me fez cair no mundo real. Eu ainda tinha que trabalhar. Não tinha conseguido uma folga. Aparentemente, quando você se torna vendedor* essas coisas se tornam mais difíceis. 
*não me julgue por julgar os vendedores, não estou querendo ser hipócrita com a minha própria classe, mas eu não ganho uma porcentagem em cima das vendas. Ou seja, não é vantagem para eu empurrar a loja inteira para o cliente. Nem quero ser isso para vida inteira. Nesse emprego eu só quero experiência de vida, não uma carreira.

Primeiro começamos a forrar o chão com jornal. Baseávamo-nos nas obras que tínhamos vivenciado em nossas vidas. Porém, tirando a parte de que alguém faz tudo pela gente. Fred – o homem do recinto – pegou o pote de massa corrida e começou a passar nos buracos.
- Fred eu acho que temos que tirar essa camada de tinta antes. – Eu comecei a puxar umas lascas que saiam da parede.
- Aqui não diz nada – ele olhou inocente para latinha.
Nisso, Rô apareceu vestida em um macacão jeans velho e com uma bandana na cabeça.
- Como estou? – Rô começou a desfilar. Seus passos eram acompanhados com o amassar do jornal que forrava o chão.
- A senhora top-model da construção civil, podia vir aqui dar uma ajudinha. – eu falei.
- O que você está fazendo Fred?
- Tampando os buracos. – ele já tinha tampado uns cinco.
- Mas não temos que tirar a camada de tinta velha antes? – exatamente o que eu falei.
Fred ficou olhando confuso.
- Você que faz faculdade de engenharia civil, não deveria estar me perguntando isso.
- Mas por que, cargas d’água, está fazendo isso sem me consultar?
- Agora vai virar a mestre de obras?
Ih! Foi só o começo. Eu simplesmente peguei a minha espátula e comecei a tirar a tinta da parede.

Capítulo 3


E lá estava eu subindo - pelas escadas - as minhas caixas para o meu apartamento. O pouco que eu tinha para levar foi resultado de uma grande negociação com a minha mãe sob o que eu poderia levar e o que eu não poderia.

Listinha de mudança


1.       Minhas roupas
2.       Minha cama com o colchão (claro);
3.       Meu notebook
4.       Meus livros
5.       Um micro-ondas – ele estava guardado no quartinho de bagunça, debaixo de uma montanha de outras coisas. Ainda esquentava, mas pode-se dizer que era melhor não abusar na temperatura.
6.       Um pote de isopor – já que não tinha geladeira. Ah! Ganhei o gelo como brinde da minha mãe.
7.       As minhas toalhas, as minhas roupas de cama.

Em síntese, tudo que eu poderia por o pronome meu na frente, eu podia levar. Como minha mãe era contra essa minha mudança, apesar dos meus avisos prévios, ela não pretendia me ajudar. Ela veio até o meu apartamento no dia da grande mudança – claro, criticou o que pode e mais.
Graças a Deus, eu tinha o que podia se chamar de boa vizinhança no prédio. Composta praticamente por idosos ou era alugado por temporada – pratica comum e que rendia um bom dinheiro no final do ano e carnaval.
- Só você mesmo para vir morar nesse... Nesse troço. – ela levantava um pedaço da cortina com as pontas do dedo, como se tivesse pegando em alguma coisa contagiosa. Mas se ela não percebeu aquele era o meu novo apartamento – apesar de admitir que parecesse mais velho do que novo.
- Olha essa parede, Carlos. – eu via nos olhos do meu pai o encorajamento típico dele. Ele sempre me apoiou em tudo.  Ou seja, todas as criticas – diretas ou indiretas – da minha mãe eram ignoradas pelo silencio dele, o que a deixava sempre estressada. – Espero que você tenha dinheiro para arrumar isso aqui garotinha, pensa que vida de gente grande é fácil.
Meu pai revirou os olhos para mim enquanto minha mãe estava de costas, me fez rir, o que a fez virar abruptamente e nos encarar. Meu pai simplesmente deu de ombros, me fazendo engolir uma risada. Vi na minha mãe o olhar de essa-garota-não-entende-nada-da-vida.
- Querida – ela chegou mais perto e passou a mão no meu braço cruzado – não estou contra essa...hum...esse seu novo passo. Só não queria que tomasse atitudes precipitadas. – ela pausou, esperando alguma coisa que não veio.
- Vamos, Laura. Se não iremos chegar atrasados no almoço dos Ferreiras. – meu pai, sabia que agora não era uma boa hora para discussões e os sermões maternos sempre levavam a isso.
Minha mãe pareceu relutar, mas se viu obrigada a ir embora. Perguntou se eu não queria ajuda, disse que a Rô e o Fred (os meus melhores amigos) iriam chegar em breve, que não precisava se preocupar com as caixas. Mas no final das contas, não fazia muito sentido tirar as coisas das caixas, não tinha a onde por mesmo.

Por sorte não fiquei sozinha ali por muito tempo. Os dez minutos que fiquei com aquelas caixa e nada mais já me deram um aperto no coração.
Fred chegou primeiro.
- E ai miss independent, curtindo o apartamento? – dei um forte abraço nele.
Sentamos no chão – onde mais seria? – e começamos a conversar. Estávamos esperando a Rô, quando ela ligou dizendo que iria se atrasar. E apesar de tentarmos pedir para ela nos encontrar nas casas Bahia, ela disse para não sairmos da onde estávamos, fazia questão de acompanhar passo a passo essa minha nova vida.
Não sabíamos quanto tempo ela ia demorar – como não tínhamos TV – Fred me ajudou a limpar o apartamento (Ah! Tinha uma vassoura, alguns panos e um rodo na lista de mudanças também). Eu havia comprado, uma semana antes da mudança, alguns produtos de limpeza. Então tudo ficou limpo em um segundo. Fred me ajudou atirar a cortina que estava rasgada e caindo. Nisso – enquanto eu me equilibrava em uma caixa e o Fred (alto o suficiente para não precisar de qualquer ajuda) íamos tirando o varão da cortina – o interfone tocou. Foi o suficiente para eu me distrair e cair da caixa com tudo no chão. Fred veio correndo me acudir, mas eu comecei a rir.
- Deve ser praga da minha mãe. – ele viu que estava brincando com situação, então, concluiu que eu estava no meu estado normal e foi atender o interfone.
Eu fiquei ali deitada no chão contemplando o teto que precisava de uma boa pintura. “Deve ser praga da minha mãe”, minha frase ecoava na minha cabeça.
- Ela está bem?
Ainda deitada, virei um pouco à cabeça para direção da Rô, vi sua imagem de cabeça para baixo ao lado de Fred.
- Ela caiu. – Fred falou.
- Novidade. – Rô estendeu a mão para me ajudar a levantar. O chão estava tão gostoso, estar tão perto dele, me dava à noção de que ele ainda existia apesar de tudo. – Vamos –  ela insistiu.
Quando fiquei de pé, vi que Fred já tinha tirado a cortina do varão e posto ele de volta no lugar.
Peguei minhas coisas e lá fomos nós rumo “As casas Bahia” procurando a dedicação total ao nosso dinheiro.

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Capítulo 2

Era sábado, cinco da horas manhã. Meu expediente tinha acabado. Milena havia combinado todo o encontro que eu teria com a tal Lolita. Fiquei um pouco aliviada de saber que as “tias” iriam me encontrar lá – apesar de na época nem conhecê-las direito.


Peguei a linha 512 que me deixou em Copacabana. No fundo eu adorava aquele lugar. Hoje posso dizer que gosto mais, no entanto, não quero viver aqui para vida toda. Copacabana, como diz a musica, ”é um bom lugar para se encontrar”. Depois disso... Que seja, lembro-me que no dia deslumbrei os fundos do Copacabana Palace. Como o bairro era diferente, as fotos não mentiam.

Como ainda era sedo pude aproveitar sozinha a calçada que geralmente é empilhada de pessoas. Questionava-me se era realmente aquilo que eu queria. Estar mais perto do trabalho e da faculdade seria um conforto. Esse conforto só se encaixaria na questão da mobilidade. Mas e os outros quesitos? Eu estava muito confusa. Mas sabia que era algo necessário.

Nossa senhora de Copacabana era muito fascinante para mim – até hoje é. Rico e pobre, baronesa e prostitutas, nordestino e estrangeiro. Antônimos em toda parte. Não existe ou nessa avenida. E cada passo que eu dava ficava mais deslumbrada – para uma futura antropóloga quanto mais diversidade melhor. Não era primeira vez que eu estivera ali, mas naquele dia parecia diferente. Como se tudo tivesse sido acentuado, fossem os defeitos ou a beleza, e era esse contraste que me deixava absorto.

Acabei passando do número – eu e minhas distrações – e fui obrigada a voltar alguns passos. Na realidade, uma quadra. Olhei para o número. O lugar não era tão ruim assim. Tinha um horti-frutti, de um lado, e uma loja de artigos esportivos, do outro. E ali no meio estava o Copa Beach. Não o Copa Bitch – ai, essas cacofonias.

Olhei pelo vidro – ou tentei, porque era aquele que distorciam tudo – para ver se havia alguma coisa parecida com um porteiro. Como nada aparentemente parecia se mexer. Apertei o numero 81 do interfone. Enquanto esperava alguém atender – Lolita – vi que a rua já começava a ficar mais movimentada. Ônibus, pessoas, bicicletas, táxi – como essa cidade tem táxi, deve ser a cidade no mundo com mais táxi por metro quadrado. Eita, monóxido de carbono.

“Alô”, uma voz grossa zumbiu no interfone.

“Bom dia. É o apartamento da Senhora Lolita?”, por um minuto tinha achado que tinha tocado no apartamento errado.

“Quem é?”

“Hum.. . eu sou Luiza. Amiga da Milena...”, mal terminei de falar e o claque na porta se seguiu pelo baque do interfone. Fiquei alternando o olhar de um para outro. Será que era para eu subir? Eu toquei no apartamento certo? Eram tantos números pequeninos e espremidos naquele aparelhinho.

Toquei de novo. Dessa vez tive o trabalho de olhar se tava realmente apertando o número 81.

“Alô”, a mesma voz atendeu.

“Oi”, eu estava meio sem graça com a situação, “Sou eu de novo. A Jennifer e a amiga dela estão ai? É que elas ficaram...”

“Vai subir ou não? Tenho mais o que fazer queridinha”, bateu o telefone no gancho e a porta dessa vez fez barulho estranho, apenas um chiado, já que ela estava destrancada.

Olhei para os lados na esperança de ver alguma alma conhecia – Jennifer – para subir comigo. Pois a voz grave lembrava muito a voz de um homem. O cafetão, talvez. Não sabia onde estava me metendo. Ah! Milena. Eu a conhecia há quase um ano, sabia que era meio sem noção, mas nunca me colocaria em uma roubada (Posso adiantar, eu sai viva dessa história, já que estou aqui para contar – isso não são memórias póstumas).

Empurrei a porta, estranhando o peso, mas não deveria ter-me surpreendido, ela deveria ter uns cem anos (exagero). A portaria era um corredor extenso. Do lado direito estavam as caixas de correio, não eram muitas. Uma mesa com TV, um banco e um vaso de flor. Piso frio e paredes até a metade revestidas com madeira – apesar do piso frio, no verão aquela portaria deveria ser o inferno. Outras plantas em um canto. Comecei a sentir um ventinho, apesar de ali não ter janelas. Olhei para o teto e tinha dois ventiladores duplos de teto – bem antigos. À direita escada de emergência e a esquerda um elevador. Com o meu pouco conhecimento arquitetônico diria que aquele prédio devia ter sido construído na década de 50.

Hoje já me acostumei , mas confesso, a primeira vez que vi aquele elevador morri de medo. Ele deveria ser a cópia fiel do primeiro elevador, criado pelo homem na Roma antiga (exagero), ou talvez com o do barco do Titanic, o mesmo que afundou. Como se tivesse tirado das profundezas do Atlântico (exagero). Ou seja, preferi subir pela escada.

Quando cheguei ao sexto andar, me vi obrigada a sentar e descansar. Faltavam apenas mais dois lances – para minhas pernas de sedentária, era quase a morte. Com a respiração ofegante, me perguntava o que eu estava fazendo ali. Tinha acabado de falar com um cara que não faço idéia de quem seja, estou seguindo uma sugestão da Milena, por que eu não subi pelo elevador? “Eu devo realmente estar com problemas”, falei em voz alta.

Eu tinha que terminar essa história. Ainda mais que já tinha dito em casa que já tinha encontrado um apartamento dentro dos meus orçamentos e mais uma vez caçoaram da minha cara. Ah! Milena. Levantei e continuei a subir. Não sabia exatamente o que estava fazendo, mas tinha que fazer.

Estava em frente à porta do 81. Tentei relaxar. Apesar do verde musgo não ser uma cor que transmita tranqüilidade. Não julgue o livro pela capa. Ora, eu trabalho em uma livraria, sei que isso não é tudo – admito ser o cartão de visita.

Apertei a campainha.

Ouvi barulho de saltos batendo no taco vindo em direção a porta. Jennifer. Mas quando a porta abriu, fui surpreendida com uma – hum, como eu posso dizer – mulher de dois metros de altura, braços torneados e um barba rala. Porém, vestido, cabelos compridos e salto.

“Pensei que tinha ficado presa no elevador. Entre”, ele ou ela deu espaço para que eu entrasse. A voz era mesma do interfone. A julgar pela situação aquele era a Lolita.

Me encantei com o apartamento. Ele estava horrível, cheio de buracos, alguns tacos soltos, cheio de poeira. Mas ele era lindo. Ele tinha todo aquele charme de quitinete – quarto e cozinha – também perfeito para uma solteira no Rio de Janeiro.

Lolita disse alguma coisa sobre caixa e pediu para que eu ficasse a vontade, dali alguns minutos ela voltaria e resolveríamos tudo.


Copa Beach – apto 81



Obs.: Imagem mera meramente ilustrativa, padrões de tamanhos sujeitos a serem menores.

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Capitulo 1

Aquele apartamento caiu como uma luva nessa minha nova vida. Lembro-me como se fosse ontem como tudo aconteceu.


Eu estava trabalhando em uma livraria fazia quatro meses, meu primeiro emprego. Tudo começou no mês em que fui promovida. Sai da condição de “trainee” para vendedora. O meu salário dobrou e me senti confortável para dar o meu primeiro passo para fora de casa.

Comecei a procurar. Não queria nada gigantesco, mas também queria que fosse bem localizado. Perto do meu trabalho de preferência. Esse era justamente o problema, achar um apartamento que custasse no máximo metade do meu misero salário. Na zonal sul do Rio de Janeiro? Começou ai uma missão impossível.

Não irei delongar a história. Já que a busca implacável demorou quatro meses. Quatro longos meses. Minha mãe zombava da minha cara constantemente. “Você acredita mesmo que vai achar um apartamento na zona sul por 400 reais?”. Eu ignorava. Preocupava-me em continuar absorta nos classificados, a dar atenção para suas gargalhadas. Porém, mal eu sabia que não o encontraria em meio aos minúsculos anúncios.

Lá estava eu, arrumando, mais uma vez, os livros que por incapacidade dos clientes ficavam espalhados por toda loja. Livros como “Aprenda os segredos da Dona Chiquinha - mil receitas” na sessão de “mistério, terror e afins”. Um trabalho que sempre me ocupou muito tempo por trás das prateleiras.

Foi entre a sessão de economia e administração que encontrei duas figuras distintas, para não dizer outra coisa. Elas conversavam em um tom mais alto do que o necessário, apesar da proximidade entre elas. E eu ali, com minha pilha de livros sob como abrir o seu negocio que estava da sessão de auto-ajuda, fazendo apenas o meu trabalho, não pude deixar de ouvir a conversa.

“Jennifer, a Lolita vai pro estrangeiro, semana que vem”. Nunca fui uma “expert” em erros gramaticais, mas as aglutinações entre a palavra para com os artigos, sempre me davam uma pontada no ouvido. “Minina, se eu achu um dasquele num solto já me”. Eu estava preste a sair correndo daquela sessão, respirar um pouco do ar da sessão de dicionários e gramáticas. Mas o decorrer da conversa me prendeu ali.

“O Copa Bitch?”, a outra falou.

“Aham”, a resposta foi em um tom que tenho certeza que acompanhou uma boquinha em formato de “o” torta e uma um sinal de confirmação com a cabeça bem afirmativa.

“Rá! Duvido que ela vá conseguir grande coisa. Deveria se livrar logo daquilo”. Ouvi elas tirando um livro da prateleira. Aquilo me irritou, tinha certeza que seria um dos que pararia em uma sessão qualquer. O puxar do segundo livro na prateleira, não pude me conter, e olhei para elas.

Nunca fui de ter preconceitos, mas eu precisaria ser cega para não ver como elas se vestiam. Roupas coladas, decotadas e transparentes. Lembrei de uma dica dos livros de etiqueta: “Nunca junte tudo isso de uma vez, seria mais fácil levar uma plaquinha de ...”. Percebi que elas me encaravam também. Forcei um sorriso e voltei ao meu trabalho.Fechei os olhos por alguns segundos e a imagem delas se destacaram na escuridão. Loiras de cabelos até cintura e saltos plataformas. Abri os olhos num estalar e comecei a colocar os últimos livros em seus lugares.

“___________, você nem sabe o que eu achei para ti!”, só ouvi a Milena gritando pelos corredores.

Ela é um amor de pessoa. Disposta a ajudar, só que meio desorientada. Eu a conheci no trabalho mesmo, entrou antes de mim e até hoje não saiu do “trainee”.

Voltando a história. Quando chegou ao corredor toda espalhafatosa e me viu com as duas figuras ficou paralisada. Pensei que estivesse espantada. “Milena estranhar outra pessoa?”, pensei. “Impossível!”. Eu que ficaria espantada.

“Milena?”, as loiras oxigenadas falaram em uníssono. Isso mesmo, elas se conheciam. Milena me puxou pelo braço para mais perto delas. “_______, essas são minhas tias”. Tias?

Trinquei um sorriso e sussurrei, “Pensei que a sua mãe não tivesse irmãs”. Minha suposição foi confirmada. “E a minha mãe não tem sua bobinha”.

“Então, é ela”, Milena apontou para mim como se eu fosse uma mercadoria. Eu realmente queria ter visto o meu rosto, depois das palavras da Milena. Fiquei imaginando o que essa louca podia ter dito ou o que eu tinha dito para que ela tivesse algum motivo para contatar essas “tias”. “Está disposta a tudo”, Milena completou sua frase.

“Milena!”, não podia ficar ali quieta enquanto Milena, A MILENA, intermediava alguma coisa que eu não fazia idéia do que era.

“O que foi?”, ela formou o semblante de sonsa que me matava.

“Que seja”, uma das loiras revirou os olhos e estendeu um cartão para mim. “O espço vai estar vago, quando decidir, liga”. Peguei o cartão. A duas mandaram um beijinho do ar e saíram com um andar que não estou aqui para julgar.

No cartão dizia:



Serviço de acompanhante 24hrs!

555-1234

Ligue para Jenn e de um Jump!



Atrás dizia a mesma coisa só que em inglês. Encarei a Milena que ainda estampava sua cara de sonsa.

“Francamente!”, joguei o cartão para Milena e sai. Quando andei uns passos e vi um dos livros que aquelas mulheres tinham pegado, em cima dos livros infantis em promoção, quase tive um treco. Fiquei revoltada.

“Calma, _______! São trezentos e cinqüenta reais tudo”, ela estava espantada com a minha reação e continuava com aquele sorriso débil que me enfurecia.

“Tudo? Tudo o que?! Você acha mesmo que estou disposta a tudo?”, eu já estava gritando. Milena me puxou de volta para sessão que estávamos, tentando disfarçar a cena que alguns clientes já tinha percebido.

“Você quer que a gente perca o emprego?”, Milena falou.

“Ah, Milena. Nós não vamos precisar emprego quando eu estiver na cadeia e você morta”, a minha fúria estava incontrolável. “Eu adoro o meu emprego mesmo ganhando mal”.

“Do que você está falando sua maluca?”, eu estava preste a pular no pescoço dela se ela visse mais uma vez a sua carinha de sonsa.

“Ora, o que você está falando por ai, Milena?”

“Você achou que...”, ela apontou para mim e abafou um risinho. “Ai, depois eu sou a lenta”, ela revirou os olhos.

“Mas elas não são?”, já não entendia mais nada.

“São”.

“Então, Milena!”, aquilo tudo realmente estava me irritando. “O que você quer que eu pense, quando diz que eu estou disposta a tudo?”, já estava me acalmando.

“Ora”, ela me imitou, “que está disposta a tudo para ter um apartamento”.

Antes de tudo ri da situação. Eu estava cansada de procurar um apartamento pela zona sul. E então, surge uma oportunidade. Milena me disse que era em Copacabana, nunca tinha ido lá, mas disse que localidade pelo menos era boa. Acabei aceitando a idéia. Apesar de ser uma indicação da Milena, que tinha mantinha contatos com “tias” que eram acompanhantes. Isso me assustava.